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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Goteiras Astrais

   Da última vez que vira o céu, como quem mira o chão de estrelas, fitara um teto de letras pingantes. Dera nome de pedaços a cada uma delas: L E N A, e deixou-as pousando em sua rede. Quem sabe dera nome de letras - entre tantas goteiras perdidas no além - à estrelas já sem donos? Será que brilhavam no breu e se fizeram órfãs de casais? E se seus pais morreram e viraram irmãs? e se esqueceram seus nomes na ponta de outros lábios?
Fariam dessas esterelas trevas em mandarim?
   Da última vez que vira o céu, nomeara o cruzeiro do sul e prometera guiar-se infinitamente por ele, até que uma de suas pontas desmaiasse e seu amor se desentendesse: _ E N A; L _ N A; L E N _?

   Hoje o céu desmaiou em sua cabeça. Tantas palavras... e descobriu que na calha de letras errava uma rasura.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Tentada

- Cada tentada, uma paliçada. a senhora sabe. De modo que, à moda dos reis baianos, essa morena me dança no peito. Doce flor. É uma menininha arteira! nem sabe a bagunça e a desbagunça que me faz. Velhaca. Mas eu acho que sabe. E bem demais! Cê tá irriquieta... Eu sei que te sou estranho... mas é adorada essa adorável moça... Então,  como dizia, vi-a vez primeira a desfilar na Ladeira da Saudade. Trazia uma travessa nas mãos. Baianinha. Um peixe morto morria na travessa, nas mãos, na saudade. Ai, a saia. Num grito gravei meu silêncio, para vê-la atravessar com todos os pés. Passou como quem passa ignorante, sem saber o que se passa. Deixa o cliente, outra atende-o. Ai, que saia! Saía rendada cantando a Dora e foi-se embora. No atônito quis corrê-la, dar dados ao meu amor. Pareço um desesperado, dona, eu sei... Mas sabendo-a, quem não se dissipa? Não pude não... Acontece que, perdoe o clichê, mas o lance parecia ter saído de um romance digno, um filminho lá daquelas terrinhas de Holywood, sei lá. Uma seca! Falo meio pausado. Me falta ar. Cê não me sabe feliz que faz esse copo de vinho e a sua presença, fina ! Brigado, senhora... Pois eu queria num átimo dar risadas mais ela, quase um ato legítimo – cê sabe: risadas são palavras de confiança... voltei à Ladeira da Saudade dia mais dia para tentar revogar seu nome. Mas ficou na saudade. Certeira. Acho que te lanço palavras desencontradas, pairantes no ar. Ocorre que lancei mão de pensar. Eis que falo assim. No então... Dona Leda. Posso te chamar de Lê? Escuta. Esqueci a moça nos próximos sóis. Não de outra maneira ficaria em paz. Ela evaporou da Bahia-de-Todos-os-Santos. Vivi os dias seguintes vivendo, percebe, Lê? Mas essa história da carochinha de que permaneci no escuro com o peito decalcado e fenecendo é lorota. É muito romantismo demais. Os dias me davam as alegrias normais: o baralho, a carne, o rir, o cigarrinho, o samba... Tem gente que não sei... é gente que aumenta. Gente que encontra a morte nos desencontros da vida... suada, garrida, sofrida, escarrada é. Sofrida é dessa dorzinha invisível! Mas morrer? como nos romances dignos e nos filminhos lá de holywood? não sei, não sei. mas me é tão adorada essa adorável moça... Um pitéu... Perdão! Pareço confuso. Estou. Porém, bom moço sou, viu? Pergunte ao Sansão, ao Guinho, ao Tiro-Certo e a quem bem entender. São boa gente também, apesar do que dizem as bocas falantes. A senhora tem mais desse vinhozinho? Caboclo te abençoe!  Esse devaneio de pensar começou por se dar há um tempo atrás. Nunca havia me ocorrido antes. Como pode isso comigo? Eu sempre fui cabra-home, forte, dominador. Ilusão. Parece que ela anda por aí atrás de alguma fortaleza pra se encostar. Vai raspando, raspando as bases, na sombra, pra que nem se faça ver. Tinha nome essa ilusão: Dora, que eu fui descobrir porventura um bom tempo depois, no após. Ela veio com um amigo meu, um conhecido, de fato. Ele me chegava com alegria todos os dias e dava bons tapas nas ombreiras, dizendo como vai e rindo-se-rindo com suas bafadas de cigarro. Conversávamos de sempre. Aventuras amorosas, rinhas de facas e as labutas cotidianas. É um grande conhecido, Lê, o tal Navalha-Aguda, mas daqueles que não se deve contar de menos e muito menos de-mais. Um conhecimento que se bastava e não se aprofundava, continuava inertemente constante, como o choro de um tamborim. A senhora sabe: confiança de menos nunca é demais, e repito. Nesse dia azulado, daqueles que no céu não há flocos nem tristezas, recebo o tapinha no ombro, pertinho da rua batida terrosa que vendo coco. Boaventura, cê de passeio? Ele me disse e riu-se com seu sorriso de cigarro, apoiando-o nos lábios. Rapazola meio-gordinho-meio-baixinho-meio-careca como se se espera de quem da sua idade, mas com uma certa sanha no olhar, como se portasse as cores do perigo. Não vou me perder muito descrevendo-o, depois você o veja você mesminha que te vale mais. Ele mais eu dialogamos uma conversa padrão de início e no seguinte ele chama o pedaço. Ai, que saia. Era outra, mas o 'quem' que se continha nela permanecia intacta, divinamente. Dora, apresentou-me. Parecia que andava meio perdida, zanzante, caçando nomes nas ruas. Queria a casa, mas houve coco. Dei-lhe um verde que só. O melhor da frota de meu carrinho. Não sou má pessoa... Sorrimos. Escuta, Lê, tudo bem eu te chamar de Lê, né, Lê? Desculpa a intimidade com a senhora, mas eu meio que me empolgo como nunca... Eu não sou de fraquejar das pernas e bambar do corpo com as cabrochas, mas Dora pôs-me assim. Conversei um bom tempo com ela, no querendo-e-não-querendo que ela se fosse logo, num de repente. Ai que vozinha linda. Navalha-Aguda foi por ela abordado para essa ajudança, mas como era meio perdido, me veio rogar apoio, para a minha sorte. Fomos e vimos, conversamos e sorrimos naquele finalzinho de manhã, como nunca sonhei! Apanhei-lhe os dados, gostos, humores, tristezas e deixei-a na portinha de sua casa, com um sorriso nos lábios. Fiquei num não-sei-que-faço quando a porta foi batida, olhando bobamente seu jardinzinho de cores. Com licença, amigo, o senhor não vê que conversamos? Esses fregueses nos atrapalham muito, Lê. Tudo bem a gente conversar lá fora, passeando na orla? Isso. Facilita bastante. Pois então, não quero que fiques brava comigo, sou bom moço. É que encontrei-a várias e várias vezes na alegria de tardes valsantes da Bahia. A Bahia não te lembra uma valsa? Nem a mim. Mas no momento lembrava a Das Flores, na minha mente tresloucada... Essa adorável adorada Dora cativara o coqueiro, o vendedor de cocos, as pedrinhas miúdas da praia e até as ondas bravias que urravam seu nome... Ai, essa prainha me dá inspiração e me lembra dela como nada. Eu beijei-a aqui, num montinho de areia que ficava desapercebido, com vergonha alheia. Foi um beijo romântico. Ela apontava as estrelas e me dizia querer ser uma delas. Caminhávamos tímidos, as mãos entrelaçadas... E vou te dizer, o coração nem mais sentia. É esse o momento que mais ri: no sabendo-se o momento do beijo, da obrigatoriedade do beijo e do momento de depois, quando se respira aliviado, feliz e triste pelo fim e pelo início de uma nova fase do romance. E ela queria ser a estrela, mas me era muito mais... Dona Leda, entenda, eu não sou de me apaixonar, amar, garrar, me dar. Só que estou terrivelmente nessa de viver pra sempre. Estou terrivelmente feliz. Decidimos que um papo eu teria contigo. Estou tendo. Bom moço sou, como já disse. Não te apetece isso? Quero sua filha em namoro. Sua adorada adorável cria.
           Boaventura sorriu tímido. Dona Leda, então, olhou-o com cautela, buscando ver se achava o coração do rebento nos caninos do recém-conhecido.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Engajamento Lírico

O sol abaixa o mar pelas tardes oceânica do nordeste. O mar virando sal e se cristalizando na mais cã da crueldade. Crianças cegas cavando o mineral mais ardente na sua pureza; são apenas crianças infelizes que mais sabem no mundo o sabor sádico do sal e sua negrice camuflada.
E no entanto, eu não me firo... Sou feliz mais cantando a cotovia, a aurora, a tulipa, a felicidade. Sou mais feliz cantando as paixões rubras que nos surgem em locais inesperados e desesperados. Sou mais completo enquanto salgo minha canjinha aguaradando mia namoradinha.

sábado, 15 de agosto de 2009

Maria do Mar - Parte 1

Com uma tora à frente da outra, foi-se, pouco a pouco, escorregando qual manteiga a embarcação de Dorival, que gritava feito louco clamando cuidado com sua preciosa Madalena, a embarcação de pesca abençoada da Praia de Iemanjá. Dori, como era conhecido, orgulhava-se de antemão de sua provável pesca farta num irradio contente de seus dentes enquanto observava o trabalho do carregador, que ia levando leves sopapos esporádicos na cabeça nua a cada falha ou breque... Produzido o equívoco, Chico-das-Toras sentia na nuca crioula o estalar dos dedos do pescador, que apressava-se a respirar o mar da ponta da areia esperando sua nau trazida pelas mãos e técnicas do servente, que era um bambu humano, mas dava um braço forte e presto por uma mixaria. Assim que a embarcação meteu a fuça num beijo ao mar, Dori mostrou-se grato ao Chico e pagou-lhe com algumas moedinhas de cobre, o que lhe fez torcer a face num enorme sorriso e correr à outra embarcação com suas toras e calos na mão.
Dorival deu uma última leve empurradinha pela água e subiu a bombordo em seu humilde barquinho de metal, tarefa feita, tratou de ligar o motorzinho de 15 hp e entrar numa guerra cotidiana às ondas quase-revoltas daquela praia lírica, digna de uma canção ao luar... com as ondas derrotadas, Dori acelerou o barco até certa cômoda lonjura e lançou sua rede de emalhar aos ventos da distância, fazendo-a cair ao mar e deitar-se até certa profundidade, impedida de prosseguir sua rota devido às boias na ponta oposta do aparelho, Dori gostou da cena, acomodou-se melhor na base do barquinho e esperou seus capitais armarem-se na rede e ficarem impedidos de vida.

Pelos próximos 40 minutos, o pescador aguardou pacientemente acomodado em seu silêncio cavernoso, mister para uma pesca bem sucedida, puxando a rede de volta para Madalena logo em seguida, a rede piscosa estava pesada tamanha fartura que o mar proporcionava, os olhos de Dori brilharam como sempre, ele apanhou peixe por peixe e deu-lhes o baque derradeiro em suas cabeças, assassinando um por um cada peixinho que prendera-se nas malhas carnivoras, depois, adentrou os corpos em um baú próprio do barco, cheio de água marinha. Dorival continuou prosseguindo dessa forma, nessa sequência de atos até o sol dormir e o mar virar um imenso quadro negro, ele ligou o barco e voltou felicíssimo para casa, onde encontrou a mulher, Amélia, deitada com um febril que a incomodava desde o começo do dia, Dorival beijou-a, jantou a janta preparada pela carinhosa, tomou uma ducha, contou dos peixes por minutos tortuosos a Amélia e postou-se na cama, aguardando o novo sono precedido de um novo dia.

Maria do Mar - Parte 2

Erguido o sol, Dorival já estava pronto para a rotina diária novamente, deixou a mulher com sono e febre repousando na cama, preparou o próprio café que tomou com um pão francês um pouco rijo já, não se demorou muito a apanhar seus instrumentos e partir para o negrume marítimo... Com igual ansiedade chamou por Chico e esperou o serviço dele, com as mesmas ordens de velocidade e o mesmo estalar dos dedos no couro do garoto, após o barco no mar, pagou-lhe das mesmas moedinhas de cobre e acelerou seu barquinho pelas ondas até o núcleo de seu local piscoso e secreto, voltando ao anoitecer ansiando pela janta bem merecida, mas o que encontrou na volta não foi janta nem nada, pesquisou pela geladeira e pia por uma bóia sequer, mas não foi-lhe útil nenhuma procura, ficando de mãos abanando; perguntou a mulher do paradeiro da janta, ela dormia, dessa vez mais quente e profundamente, com uma febre que esquentava o ambiente, sensibilizando qualquer médico experiente em males cruéis, ele não se abateu, preparou a própria janta, deu um beijo na mulher e foi cuidar dos peixes que estavam repousando numa caixa cheia de gelo para serem enviados assim que possível à feira, permaneceu por cerca de uma hora organizando os peixes novos com os de ontem, dividia por tamanho e tipo até ficar tudo bonito visualmente, fechou a caixa e foi para a cama dormir.

Repetiu-se a mesma cena ao dia próximo e seguinte, Dori não lhe deu a atenção, a mulher, calada, consentia e sofria no seu mais dispendioso silêncio... A mesma faca que Dori usava para rasgar o pão no centro, cerrilhava mentalmente a carne que se putrefava de Amélia enquanto Dorival a ignorava numa ignorância não proposital, mas esquecida, Amélia sentia-se abandonada, o que lhe intensificou as febres e apressava mais que depressa sua corrosão interna e externa. Não mais clamava pelo marido que saía de manhã e voltava na noite ébria , não mais, dormia apenas caladamente ao som dos passos da morte...
Certa manhã, Dori seguiu sua rotina, preparou seu café torrado, bem forte – como lhe era de agrado – e apanhou seu pão vivido para rasgar-lhe a derme e afagá-lo com manteiga, ansioso para digerí-lo e rumar ao seu mar de ouro, seu assassino mar áureo, amava a mulher, decerto, mas Dori havia manifestado em si uma incomensurável ambição pelos peixes, como que num vício de jogatina, não se podia retirá-la de sua ânima, condenava-se agora a viver e morrer de pesca, respirar pesca e até criar brânquias, se possível! Dori mudou e, não mais o mesmo, esqueceu-se pouco a pouco do único ser que lhe tem amor por aquelas redondezas, nem Chico-das-toras, nem nenhum concorrente dos mares, o único ser que lhe amava jamais tivera guelras ou anzol, sua mulher, amável mulher aquela que acompanhou Dori por todos os seus devaneios e conquistas até aquele maldito dia em que resolvera pescar vidas, o mesmo homem que lhe dera a vida nos instantes de alegria perene, tirou-lhe com anzol e isca no momento em que resolveu mudar-se à beira-mar e viver para pescar.
Dorival saiu de casa com seus petrechos básicos e fechou a porta, esquecendo-se da bem amada ardente no leito, ele chamou por Chico-das-toras, pagou-lhe bem com uma rodela de bronze e migrou para o mar, no esquecimento total da vida, concentrando-se unicamente na pesca por vir.

Maria do Mar - Parte 3

O sol torrava a cuca do nosso amigo pescador enquanto sua rede era preparada para o lançamento, Dorival não se abateu pelo sol e continuou rijo no seu destino: pescar o máximo possível de grana!
Ele ia desamarrando a rede pouco a pouco até sua total liberdade, após o trabalho ele lançou-a ao mar e esperou... Foi-se a tarde toda novamente, Dori não cansava, não sentia o marasmo no ar, o clima monótono de cotidiano jamais apanhara Dorival dentro daquele barco, dentro de suas pretensões, era como se o serviço de lançar a rede e esperar silenciosamente fosse a tarefa mais gostosa que já vivera! Nada mais lhe passava na cabeça meio calva além do mormaço, contudo, de maneiras esporádicas ele deu a pensar na mulher que esquecera do outro lado do mar, abandonada, desprezada e que chorava em dor, de repente, esses pensamentos tornaram-se fixos e acasalaram-se com a mente de Dori causando-lhe um passar mal seguido de vómitos, o homem postou sua cabeça pra fora do barco e despejou suas secreções ao mar, dando-lhe um tom azul-esverdeado, logo após, ele sentou-se ao barco e olhou para o céu em busca de respostas, não encontrava nem ouvia nada! sentiu apenas sua rede dar um puxão com força, parecia um enorme mamífero do mar depredando seu instrumento de caça, o pescador, assustado, puxou o utensílio com força para si, algo se enroscara e tornara difícil puxá-lo, mas conforme ele foi retraindo o braço, foi ficando mais fácil a vinda da corda, e quando perto, com tremenda força de reserva, Dorival puxou a corda para cima no intuito de içar a rede para a pequena nau... Os olhos dele brilharam ao chegar esse momento, aspirava um enorme peixe capaz de render-lhe um bom quinhão de dinheiro, estava arrependido, queria ajudar a mulher a quem tanto amou a se recuperar. Conforme subia a corda de centímetro a centímetro, Dori apreciou, enganadamente, com seus olhos salgados a vinda de um dedo pálido, carregando uma pequena mão que carregava um braço num ombro e por fim os cabelos cãs postos defronte à face albina de Amélia, Dorival apanhou-a desesperado lançando-a ao interior do bote, encostando os ouvidos no peito dela esperando algum tum somente, mas o silêncio homicida foi mais forte e deixou Dori esperando a batida vital do coração da amada pelo resto do dia, e da noite, e do dia, e da noite, até seu coração amansar aos poucos e entrar em perfeita sincronia com o de Amélia, pondo fim ao assassino dos mares, pondo fim ao assassino das terras...




quarta-feira, 12 de agosto de 2009

A Velha no Box

A água escorria pelas trincheiras cãs da velha enquanto ela preenchia-se com glicerina perfumada, fazendo bolhas flutuantes pelo box. A mão enrugada esfregava com efeito de masssagem, sua fronte. A velha embrava-se com afinco do tempo em que já não era velha no box, seus dedos não eram freados pela tez repleta de sulcos e ela ainda tinha uma beleza pueril, digna de um conto de fadas ou uma valsa eterna pela madrugada clássica.
Era uma jovem! ah, e que jovem! O cheiro de febo refrescava a cuca da velha, que agora descia as mãos pelo pescoço, de olhos cerrados, e sentia as carícias de uma boca de homem beijando o perfume azedo que só o pescoço esbanjava, a boca transformava-se em nariz, que inalava a carne nova que a velha lembrava-se ter.
A água quente escorria por sobre seus seios que miravam o chão, na cabeça da velha, já não eram mais seios que fitavam o chão, eram seios como dantes, duros, orgulosos e rosados, que gotejavam leite para a pequena boca do rebento ou a do marido, sedento por um seio de mulher. A barriga de velha chacoalhava pendulada pelo corpo, ela sorria como uma bunda, com suas dobras sobrepujadas sobre as mesmas... Eram as dobras agora inexistentes para a velha, que acariciava com sabor sua cintura - e os olhos fechados - e, de súbito, sentiu uma mão tocar e massagear seu sexo, a mão do sexo, a mão masculina que bulinava a velha com fins de nocauteá-la, contudo, a mão não mais masculina era. A velha agora dobrava seus joelhos e sentia-se mais leve, seu corpo estremeceu-se todo, a palpitar de prazer, sua tez, seu pescoço, seus seios tristes, suas curvas e seu sexo saíram mais jovens do banho, porém, a velha saiu mais velha, pois sabia que o homem junto a sua mão masculina, não estavam mais esperando-a na cama após a ducha.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Introdução ao pacto Nazi-Judaico

Não há nada mais útil a uma classe, do que uma grande revolução, um avanço tecnológico, um desenvolvimento socioeconômico atrelado a uma consciência coletiva de preservação da vida e respeito aos direitos humanos – seja o humano de qualquer “raça” ou religião -. Esses efeitos positivos dobram-se à medida que os povos diferentes se unem em prol de uma igualdade, uma troca de benefícios que mexe com o coração, bolso e cabeça de todos os habitantes deste planeta esplêndido em que vivemos!


Durante toda a história mundial (transcrita, ou narrada de boca a boca) não vi ação mais bela do que a troca de favores entre o Pacifista e diplomata Adolf Hitller e os indivíduos adeptos à religião judaica. Não mesmo, pois a troca de favores que eles exerceram no acordo firmado em meados dos anos 30 ao 50, chamado: “Sociedade Amigos do Trabalho e Amor”, foi totalmente fiel e humanitário, assim como Mao-Tsé-Tung, honorável cidadão do mundo, agiu com seus compatriotas.

O pacto começou com os nossos amigos nazistas, companheiros de Adolfinho, exercendo o bem para os judeus exterminando todos os fracos, incapacitados e pobres, utilizando-os para fins técnologicos comerciáveis, desenvolvendo, sucessivamente:
- Desentupidores de pia de última qualidade.
- Gasolina para fusca.
- Isqueiros.
- E cuecas Lupo.
 Já na área da medicina, fizeram importantes descobertas como:
- O olho de um judeu não muda de cor ao se injetar enxofre.
- Um ser humano não sobrevive se abandonado no meio de uma cirurgia cerebral.
- O coração é essencial para o bombeamento do sangue.

Ao mesmo tempo que os judeus “Incapazes” foram excluídos da terra através de processos eliminatórios – como fuzilamento, inalação de gases tóxicos e maratona em campo minado -, os judeus tidos como mais forte sobreviveram a todas essas etapas, sendo os únicos restantes, que se reproduziram e criaram uma raça de super judeus (que mais futuramente fizeram sua fortuna e dominaram o planeta com seus bancos mercenários).
Temos o Silvio Santos como um bom exemplo de super judeu, ele é um dinossauro que tem a capacidade de defecar capital, viajar a Miami, apresentar 3 (três)  programas diferentes, dirigir uma emissora televisiva, repetir os mesmos episódios de Chaves há 26 anos consecutivos e ainda sobra um horário apertado para comprar o seu carnê do baú e penter seu topete, TUDO EM UMA SEMANA.

Não vejo motivo, razão ou circunstância que deixe as pessoas com tanta repulsa do pacto firmado entre esses povos, afinal, todos saímos ganhando: eu, você, o dono do seu banco, o Bozo, o Chaves...

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O Nascimento da Música

O Nascimento da Música
Se já não bastasse a surpresa do rebento ao ser entornado do útero e ter a luz queimando seus olhinhos, ainda por cima passou a conviver mais fortemente com o som: o ruido da maternidade, dos médicos contentes, da mãe baforejando, e do seu próprio choro, um sol bemol. Nesses instantes de pura intensidade auditiva, o neném - futuro Cartola, nome em homenagem ao grande poeta do samba - como Noel Rosa – sofreu um baque por ter explodido, assim, tão repentinamente, todos os seus sentidos de uma forma desumana. Os olhos ainda eram puros e virgens, o olfato aguçado, o ouvido absoluto e todos sincronizados para um maior entretenimento com o planeta.
O chorão não chorava à toa: era o susto, o medo da novidade acelerando seu coração logo nas primeiras horas na terra. O que de fato comprovou que aquele era só mais um ser humano comum. Meses depois, longe da maternidade e já no conforto do carpete da sala, enquanto brincava com uma espécie de bola fofinha, jogando-a para cima e para baixo, ouviu a porta se abrindo às suas costas e recebeu com sorriso o pai, aquele imenso ser, que trazia nas mãos uma caixa engraçada e colorida até demais, Boa noite, filhão, trouxe uma lembrancinha pra você e espero que você use bastante por que é muito mágico! Cartola continuava olhando para a caixa sem entender nada do que o ser grande dizia, cresceu os olhos quando o pai colocou a caixa no chão e a abriu com cuidado, retirando uma pequena fôrma de plástico com pedaços brancos de forma retangular estendidas na ponta e com algumas peças negras salientes entre as teclas cãs. O bebê ficou deslumbrado com aquela coisa maravilhosa! depressa, tornou a tocá-la, e, ao apertar aquele retângulo preto, ouviu um barulho, um lindo barulho, mais precisamente um Si bemol!
Aquele som o deixou maravilhado e o fez apertar de novo e de novo, partindo depressa para outra tecla, que soou um delicioso Ré sustenido, som que ele diferia com facilidade do Si bemol! Por mais que já tivesse alguns meses de vida, iniciara a sua verdadeira vida alí, a partir daquele instante em que conhecera as notas e seus valores singulares, pois nunca mais esquecera-se daquela arte pautada: a música.

domingo, 7 de setembro de 2008

A mulher ideal

Os seus pés devem ser diminutos acompanhando suas respectivas mãos; as pernas, curtas e perfeitamente cilíndricas no topo, devem afunilar-se até o encontro da canela lisa onde nada se prende, com exceção dos olhos de um admirador apaixonado. A barriga não deve exagerar no volume nem se ausentar de qualquer lipídio; perfeitamente modelada deve ser a cintura da moça, como um violão pronto para ser tocado. Assim, as garras desesperadas do rapaz não se perderão no abraço demorado de que tanto esperava.

Sua face deve ser perfeitamente harmoniosa junto a um tom de pele claro; a boca, carnuda tem de ser; o nariz: um pouco achatado e um tanto quanto japonês - como os olhos rasgados e levemente pintados. Suas melenas devem ser no tom original, porém, com um Q de cachos, o que diferiria uma asiática das outras; isso daria um charme perfeito e uma característica exótica à oriental.

A cabeça, parte mais complicada e rara, é um assunto a ser tratado com muita delicadeza, pois qualquer falha no processo de criação poderia ser fatal e arruinar todo o projeto de mulher ideal. Seus pensamentos devem ser devotos a mim em pelo menos 50% do tempo livre. Enquanto não, a paixão pela leitura de livros tem que ser algo presente nela. Quando a moça ligar o rádio, mirar o cd de Vinícius e Toquinho ou Noel Rosa, e, se por acaso a energia faltar, de súbito ela deve apanhar o violão e cantar com uma voz melodiosa e doce todas as canções que um nostálgico ouvido Brasileiro pede.

Todas as suas atitudes devem possuir reflexão e filosofia, pois ela, enquanto cidadã, deve saber se estabelecer perante a sociedade e as pessoas que a cercam. Mister é uma capacidade política e ideológica voltada à nação em que ela vive, uma brasileira com físico oriental. Sobre a fidelidade não é necessário comentário avulso, e o pudor da mulher deve possuir o mais perfeito equilíbrio entre chatice e “vulgaridade”. Que seja uma grande poetiza também, pois nada do que eu disse aqui é útil enquanto o seu caderno continuar em branco.

Mas o que mais deve chamar a atenção, decerto, é sua capacidade de ser assídua Brasileira, com a beleza exótica de uma oriental, afinal, de que me vale toda beleza do mundo em uma cabeça tão distante, tão distante, de outro mundo?

sábado, 12 de julho de 2008

O dia com um poeta!

Não é tão moderna e atual essa minha vontade incontrolável e fixa de tornar-me essencialmente escritor, jornalista de profissão (fome ninguém quer passar), mas não sendo jornalista, a grande vontade minha é trabalhar com textos e redação, qualquer área envolvida em criação ou versificação de textos agrada muito minha ânima, como algo único e eficaz para fazer a alegria brotar em meu peito.


Atentando a essa vontade, eu recebi um convite da minha “Muié” (a que todos costumam chamar de “mãe”) de visitar a área de imprensa da empresa em que trabalha, de pronto aceitei, parecia algo interessantíssimo e uma experiência rica pra entender melhor como jornalismo funciona na prática. Saímos de casa às 7 da manhã e chegamos lá por volta das 7:45, comemos pães de queijo acompanhados de chocolate ao leite n’uma lanchonete do prédio e subimos. Achei muito legal conhecer o pessoal e o prédio aonde está instalada a Pharmexx Brasil. Um ar muito aconchegante e confortável a área de trabalho daquela empresa possui, um certo clima de amizade, e não de hostilidade e frieza que percebemos em muitas multinacionais desorganizadas e desmanteladas, essa foi a primeira coisa que notei ao entrar pela porta de vidro, esse diferencial de suma importância à qualquer empresa, grande ou pequena: uma vibração de união pairando no ar, na copa, nos escritórios e principalmente nas salas dos diretores e presidentes engravatados.

Após ser apresentado a todos, fui dirigido à sala de apoio e imprensa da Pharmexx, esperei lá o jornalista e escritor que teria o cargo de apresentar-me à profissão, foi nesse meio tempo de espera que minha mãe voltou ao seu oficio com ânimo, uma grande prestatividade, um adjetivo muito notável nela, uma força de vontade irremediável, muito mais que apreciável. Foi um rapaz de óculos E escuros cabelos que entrou pela porta cumprimentando a todos, era seu último dia lá na empresa, seu nome é Rodrigo Capella e admirou-me muito o fato dele ter lançado seu primeiro livro aos 16 anos, algo que quero fazer (com muita sorte) antes dos 19. Cumprimentei-o e ele logo se dispôs a ajudar-me e ensinar o jovem, ainda inexperiente no ramo e imberbe na tez. Eu aprendi muitas coisas, mais do que presumia aprender na verdade, e ele disse-me algo óbvio mas que eu ainda não tinha parado pra pensar: a divisão do jornalismo entre redação (midias em gerais) e jornalismo empresarial, no caso, os jornalistas dentro de empresas trabalhando e escrevendo com um único propósito de divulgar o nome da própria empresa (embora a rede Globo faça explicitamente isso com seus programas, não creio que seja encaixada nesse setor jornalístico).
Essa, sem dúvida, foi a lição mais importante que aprendi, pois isso abriu novas vias de atuação em minha mente, que antes era composta por uma única estrada totalmente esburacada. Com essa nova visão, partiu-me em dois a dúvida: em que tipo de jornalismo trabalhar especificamente? Se por um lado há uma terrivel panelinha e jogo de vaidades do mais alto nível de baixeza humana, do outro há aquela vida entocada em um escritório dividindo espaço com muitos outros funcionários tementes aos chefes desalmados. Se por um lado há a busca da notícia, conhecer gente influente e textos divulgados em todo país, no outro há um mercado cada vez mais em alta, com cotidianos até que razoavelmente tranquilos, sem muito estresse... Mas essas são alternativas a se pensar ao longo da vida, por vezes, não sou eu quem as escolho, não, é a vida que me leva e impõe um microfone na mão em Fernando de Noronha ou um escritório de vista para a Avenida Paulista.

Resumidamente foi esse o meu dia, fora, claro, o fato de eu ter que passar toda uma entrevista do gravador para o word (procedimento chamado de "decupar fita"), essa, sem dúvida, é a parte chata do jornalismo e terei que arcar com esses duros ossos do ofício... Essa entrevista recebeu cortes e modelagens para ficar “lida” pelos internautas, também recebeu introdução e formatação, tudo feito por mim. Esse foi uns dos principais frutos de meu primeiro dia como “estagiário” de jornalismo! Agradeço muito agradecidamente ao Rodrigo Capella por ter me cedido essa oportunidade única de aprendizado, e, agradeço mais ainda por ele ter deixado meu texto e formatação da entrevista todinhos na íntegra, sem alguma modificação sequer... Que coragem, poeta!

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Corra, Lola, Corra - 4º Final

GLOSSÁRIO:
Trívias = Ações rotineiras
Adianto = O mais efetivo

Onze e vinte e nove vira o ponteiro, onze e meia agora, no escuro da sala é ouvido o estridente chamado do telefone, recebeu uma ligação, era seu namorado clamando socorro, o distraído trocou sem intenção a sacola entupida de grana com a de um mendigo, perdendo 100 mil marcos de uma missão a ele encubida: -“Socorro! Ajude-me!” – clamava o condenado em uma última ligação desesperada: -“Preciso de 100 mil até meio dia do dia de hoje, eles virão, matarão-me sem dó e pena, me ajude!, Estou em frente ao Burger King, ‘Corra, Lola, Corra!’.
A namorada, prestativa e ruiva de corpo esguio, apressou as pernas e deu com a porta abrindo-a com velocidade e vontade, chutando com gosto um cachorro intrometido latindo a sua pressa ao descer a escadaria. Cruzando a porta de saída comprimiu os olhos dada a luz solar intensa em sua face, anunciando o dia belo que estava perdendo no breu de seu apartamento, não parou, correu, correu e correu, como nunca correra antes em busca de uma vontade ou liberdade.

De dentro da cabina era alto o som das teclas batidas pelas mãos nervosas, seu suor saía frio de cada esporo de seu rosto pálido enquanto ele conjecturaa um modo de recuperar o capital, para o seu bem, somente para o seu bem estar físico. O atrapalhado via através da janea de vidro o cotidiano de pessoas normais, 'trívias'* de cada uma daquelas vidas, andando de maletas, apressadas, pensando no trabalho, nos filhos, na rotina ingrata de cada uma dessas almas penadas. Many – a vítima de sua própria distração, o homem devedor, funcionário da missão – queria ser no momento uma dessas pessoas, com rotinas normais, rotineiras passageiras da vida, de trabalho e honestidade, mas não pensara mais nisso, recordara de alguns estabelecimentos úteis para roubo, porém, não via mais tempo e saída, estava totalmente fadado a morte, engulindo a seco seu temor e pranto.
Continuou teclando as teclas a espera de uma resposta milagrosa, uma dádiva de idéia que salvaria sua jovem tez. Tec tec, tec tec, para que bater as teclas? É de mais 'adianto'* o pensar! Mas fazia-o, e fazia-o bem, porém, não o suficiente. Enquanto o tempo corria e o telefone sofria, transeúntes necessitados de comunicação pública batiam à porta a espera do telefone, bem do povo e patrimônio público, contudo, não lhes era cedido este recurso, não enquanto um bandido armado e pálido de preocupação dominava o setor e se reservava aquele aconchego da cabina. Para o bem dos incansáveis comunicadores, o rapaz bateu as teclas uma última vez, só que desta vez com um largo sorriso branco estampado na face, olhou prum lado, olhou pro outro, e dobrou suas bochechas apertando os olhos num riso de felicidade... Ou seria de insanidade?

Corre, corre, aperta o passo que o tempo não pára de passar, e lola, agora em um tom uno de vermelho do cabelo ao rosto, sabia da necessidade com que urgia a grana, por isso, não se intimidava por obstáculos quaisquer que atravessassem sua fronte, derrubou gente, bicicletas, sacolas e até mesmo um bebê guiado em seu carrinho por uma vaca míope. Todavia, uma única cousa somente chamou-he a atenção e pregou seus passos em um curto espaço de tempo: uma pasta preta, preta com hastes e contornos dourados, brilhando feito lava em plena ebulição, seu couro era tão preto quanto a Limousine que a guardava, pretíssimo como o terno dos seis engravatados risonhos e armados que continham no carro de luxo, descontando o motorista, também de preto. Ela fitou bem o automóvel parado no farol e com um só golpe duro e presto estilhaçou a vidraça da porta esquerda do automóvel, causando um grande susto, um grande corte na mão direita da ladra, e por fim, uma grande perda aos “Carlitos” que tentaram à toa agarrá-la.
Agora, com aquela curiosa pasta preta na mão e seis corredores armados correndo em sua busca, os 400 metros rasos da moça tornaram-se mais complicados e emocionantes, deixando-a cega de sensatez. Em um irônico coro uníssono e grave ela ouvia à sua traseira os engravatados gritando: -“pega ladrão!!” num ofegante grito de misericórdia e implorando auxílio, o único que encontraram – ou que encontrou o problema – foi a de um policial eficiente mas mal-sucedido em sua arbitragem, que mandou parar a corrida com os braços esticados e retos dedos apontando todos o céu, o berro do apito em seus lábios foi inútil. A donzela corrupiou pelo guarda e ‘inda por cima surrupiou seu calibre 38 que estava à mostra e inseguro em sua veste própria. Não bastava apenas seis machos seguindo-a, ela aspirava mais um, e o teve. Seis engravatados e um policial desacatado e desarmado batendo pernas em sua busca, presa difícil e rápida. A namorada não desistia nunca e nem desistiria, faltavam apenas dez minutos para o meio do dia e ela já havia corrido por dez. Uma lágrima correu por entre seu olho e queixo, vindo a cair em sua pasta enquanto respirava afobada pulando calçadas defeituosas, arrombadas pelas raízes das árvores.


Com o telefone no gancho e as teclas sãs, o devedor apanha os seus objetos e coragem, largando o temor na cabina, a espera de um próximo mafioso ou um servidor tenso, ou quem sabe ainda, um jovem namorado infiél com uma amante barraqueira. Abriu a porta vermelha depressa, saindo com um olhar firme e determinado para a calçada ao lado, dispensou os comentários alheios que lhe circulavam os ouvidos e caminhou esbarrando e empurrando alguns indivíduos da fila que atrapalhavam seu trajeto, observou a movimentação na rua e atravessou-a com cuidado, chegando em segurança à outra margem. Ele estava pondo seu plano em ação, uma medida urgente e emergencial que rezava ele fosse efetiva e segura, pois sua continuação na terra dependia do bom funcionamento do plano, e, principalmente do bom comportamento das vítimas do fast-food.
Sem dó e lentidão, Many desceu o pé na porta em que estava escrito empurro e adentrou o lugar com vontade, fazendo o olhar de todos os comilões se voltarem a ele num silêncio pacato e curioso, o bandido penetrou a mão direita no casaco em busca de algo, olhando firme para todos do recinto, durante a busca mirou algo que lhe agradara a vista: um mendigo com um sorriso largo fitando seu sanduíche de três andares excetuando-se da curiosidade dos demais. Ele trazia em seus pés uma sacola azul, exatamente a que Many havia trocado no vagão metroviário, isso apaziguou-lhe os ânimos e o fez retirar as mãos vazias da jaqueta, disfarçou bastante e caminhou como se nada houvera, enrolou um pouco e não tardou a chegar à mesa do sortudo descamisado, cuja camisa fedia a podre e urina, o cobrador enjoado ficou ao ver as mãos do homem barbudo e sujo fecharem-se imundas no pão com queijo derretido em três hamburgueres de frango assado, mas isso não o impediu de prosseguir com sua meta: o reembolso. Agora, mais fácil, evidentemente.
Sentou-se ao lado do rico coitado e, curto e grosso, olhando direto nos olhos, disse a mala ser dele e que a queria novamente, o mendigo ficou inquieto e realizou movimentos suspeitos ao deslizar sua mão parca de higiene pela mesa chegando ao colo, assustando Many, que admoestou o mendigo dizendo-lhe das graves consequências que haveria se ele reagisse mostrando-lhe o revolver como ameaça, o ladrão pediu a arma e o pobre foi obrigado a ceder, colocando-a em sua mão de forma recatada e temerosa. Agora justiçado, Many afastou-se da mesa devagarosamente e foi dando passos curtos de costas observando o paupérrimo cidadão barbudo, no momento sem a sacola, naturalmente. Realizou esse processo até sair completamente do estabelecimento, guardando as duas armas na sacola endinheirada, que foi bem fechada logo em seguida.


Aquela farda pesada atrapalhava o bom rendimento do homem da lei, o policial - ou gambé, comumente chamado peos menos afortunados cidadãos da cidade -, e para piorar, sua malfeitora era demasiadamente veloz e livre de pesos maiores, com excessão da pasta preta, claro, motivo de sua caça. Este era o seu quarto dia como vigilante das ruas e boas emoções já lhe era fornecido, ele, ainda inexperiente no assunto, não sabia o que fazer quando alcançá-la, que medidas tomar, como se proteger de possíveis ataques, todas essas preocupações fizeram-lhe pedir reforços por seu walk-talk. Com a ajuda agora a caminho, ele continuou sua busca sem medo, ele e mais seis homens engravatados com semblantes sérios.
Não era de se esperar que a ladra se cansasse uma hora, sua velocidade era grande demais para um bom punhado de tempo, mas, curta demais para escapar dos olhos atentos da lei, aos poucos ela foi cansando-se assaz, porém, não largava a corrida jamais, ia pulando e desviando de tudo e todos, até em um dado momento falho de sua prova. Olhando para trás, observando o policial e os homens transando luto, não avistou um rapaz de médio porte transportando uma maleta azul, houve um trombamento seguido de engarrafamento corpóreo, o efeito dominó descendeu o guarda embaixo de mais seis cavalos, formando um montinho não intencional, isso causou grande pressão sobre o corpo do pobre homem de maleta azul, que berrou de dor e susto.
Com o impacto, armas e sacolas voaram numa sinfonia de gritos e chuva de objetos, as exemplares de tauros desceram do alto e sentaram no chão de bicos unidos, como num beijo só, o beijo das armas, impactante cena, junta à pasta escancarada evidenciando o crime dos homens: muito dinheiro caído no chão, drogas à mostra, mais um revólver, documentos aparentemente falsos e fotos de um crime, como prova de um assassinato a sangue frio. De modo totalmente previsível, os seis mafiosos aprontaram-se para correr, levantando depressa do chão e forçando os músculos para o primeiro impulso desesperado, sendo barrados logo à frente por cães da lei e mais quatro guardas de reforços. A moça, belíssima ladra peçonhenta, foi apreendida de cara pelo guarda novato que, com rosto risonho, sentia enorme prazer na sensação de trabalho feito.-“Você conhece a criminosa ou algum daqueles seis homens que tentaram fugir da lei?” - perguntava ele ao many, o rapaz inocente que levou a trombada, -“não, nunca vi ela antes, nem ninguém da confusão...” – replicou o falso namorado, que levou apenas em sua memória o olhar frio e vingatio que Lola lançou sobre seus olhos, traidor sem caráter e mal-intencionado, todos e tudo foi apreendido, excluido Many e a sagrada sacola azul bem fechada e segura, que quedarm no ponto marcado a espera dos homens da máfia por mais uma hora após toda aquela balbúrdia na calçada do Burguer King. Nada chegou, nem ninguém, Many voltou à sua casa e esperou nela, esperou, esperou e esperou mais um pouquinho, sempre atento ao relógio e calendário.


-“Liberdade. Sai logo da cela que eu não tenho o dia todo!”
-“Como assim? Absolveram-me?”
-“Não, a fiança foi paga, agora não me encha mais o saco, vá!”
Sai Lola de sua cela quadrada, úmida e escura que guardava suas lágrimas, a garota subversíva à legislação nacional. Havia se passado uma semana desde seu enclausuramento, ela espiou todos os lados do corredor da lei, pensando nunca mais querer voltar, e acabou desembocando na sala de recepção da delegacia, onde um homem bem vestido cumprimentou-a com um beijo na carne direita da face:-“Demorei muito?” disse Many contente em vê-la, -“como você conseguiu me tirar daqui?”, replicou Lola, -“com dinheiro tudo se consegue, a fiança era cara, mas você vale mais...”
-“E como você conseguiu o capital?”-“Os homens da máfia não apareceram para receber a sacola, um tempo depois eu acabei descobrindo que os rapazes que você havia roubado eram os mesmos homens de preto que me buscariam, pediriam a grana, enfureceriam-se comigo e me jogariam num barranco qualquer já sem vida, por fim.”
Many abraçou Lola com força e afeto. -“Vamos, ainda sobrou uma graninha para viajarmos e sumirmos do mapa.”Deram-se as mãos e caminharam rumo à liberdade.
Âmbos.

terça-feira, 27 de maio de 2008

O Pierrô fugaz

Lembro-me do firmamento. Naquela noite a divisão dele em miúdas partes embelezava a rua em meio à chuva colorida de confetes e serpentinas, e essas mesmas serpentinas divorciavam as estrelas para acertarem alguma cabeça distraída.
Passou-se não muito tempo dês daquele dia em que descobri o lado posterior da vida. Foi agora, no carnaval de 57. Ano passado. Eu, com minhas vinte e poucas primaveras dançava despreocupadamente ao som das marchinhas, enquanto só, conjecturava desatinos e sonhos de garota.
Era uma verdadeira festa posta nas ruas. Todas elas entupidas de sambistas, estrangeiros, malandros, brotos e lança-perfumes. Alguns sorrindo, alguns pulando, alguns sorrindo e pulando, outros – ao sabor da festa – arrumavam brigas, sentenças e muita bebida.
Como em todo carnaval, por trás de um solitário triste há sempre um par alegre. Pensava eu que para isso havia o carnaval: enquanto uns poucos esbanjavam e ostentavam afeto, afago e carinho, outros, menos sortudos ou bonitos, cobiçavam a cabrocha do próximo ou se ocupavam em desperdiçar piropos a esmo afim de conquistarem algum broto e arrebatá-las num só beijo.
Tudo isto era verdade, digo-vos: as cabrochas, as bebidas, os lança-perfumes e a cobiça do próximo ao próximo. Porém, como em todos as festas, eu estava e continuava só, sem próximo, sem par para dançar ao relento... aspirando o pierrô e sonhando-me columbina.
Tudo mudou naquela noite. A benção e o milagre dos céus que pedi foi cedido e acertou-me a nuca com prazer! uma serpentina estranhamente negra quicou-me e rolou chão adentro. Obviamente não compliquei-me a pegá-la ou reclamar ao dono, afinal, serpentinas são feitas para viagens, divórcios e colisões.
Nem sequer preciso foi um olhar de rabo-de-olho à minha traseira para que um rapaz, um pão para ser sincera (que me perdoem os leitores e leitoras dignos de respeito), mirasse-me e viesse ao meu encontro: moço pardo, boa estatura, dono de olhos verdes, cabelo escuro escondido por apetrechos, rosto fino e voz doce. Parecia-me cordial e ingênuo pelo olhar – que lambia-me sem cessar – Perdoe-me, mil perdões, dizia o homem de mira, Não foi proposital, dama – e continuava abstendo-se do silêncio para desculpar-se.
Acima de tudo, seu respeto e educação surpreenderam-me e surpreendem até hoje quando eu me lembro. Seu tom de voz era macio e gentil enquanto suas palavras, seletas. Fui de recíproca educação a ele, respondendo que tudo bem, para não se preocupar. Assuntos alfim pernoitaram nossos ouvidos ganhando espaço na cabeça e coração.

Será este meu pierrô? Indagava-me enquanto ele me contava sobre seus devaneios e boas ações. Uma chance destas eu não poderia imaginar desperdiçar, o possível homem da minha vida, e de olhos verdes!
Não quis me revelar sua natalidade nem idade. Eu conjecturava sobre possíveis meios futuros de expôr seus dados tão sigilosos.
Um banho de lua arrastou-nos em direção à Ipanema e seu mar de espelho. Instalamo-nos lá, a sós, não sem antes o cavalheiro buscar seu violão em casa. Aquela noite especial, juntos à fogueira, à lua, ao violão e nós dois: eu de cócoras sobre a areia fria de ipanema degustando os acordes do afinado rapaz, ele, que por talento, assassinava meu tédio. Galanteador, recitou-me uns versos do poetinha Vinicius de Moraes, entre outros apaixonados.
Pela primeira vez na vida, sentia-me completa, apaixonada reciprocamente, dominada pelo rapaz que abriu-me o coração retirando as antigas mágoas e tristezas, expulsando-me da dor do amor demais de um só viés. A solidão por mim chorada toda noite foi estirpada de meu ser - lúdico - sem mais sofrer sem mais agudas dores.

Tocava extremamente bem seu violão, e eu, sentia-me à vontade de sua voz que calou-se subitamente ao toque de um lábio feminino. O beijo parou o tempo e, todas as ondas que o mar rebentava, mudas ficaram.
Permanecemos na areia por mais alguns instantes. Conversávamos bastante, trocávamos carícias e seguranças, enfim, coisas triviais de casais. Recitou-me alguns versos a mais do poetinha e calou-se por minha boca um punhado de vezes.
Ficou decidida a retirada da praia para a casa do moço. Eu estava totalmente hipnotizada, nunca em sã consciência pecaria em demasia assim, imagina! Onde já se viu dar-se por completo a um estranho a primeira noite de ósculos tímidos?
Mudamo-nos dos pequenos e rotundos minerais da praia para caminharmos em direção à sua casa:
ficava não muito distante, há uns 800 metros de pernada em relação a onde namorávamos.
Ipanema estava graciosa aquela noite e dobrávamos os joelhos a lentos movimentos. Havia poucos praieros no instante, porém, lembro desta mesma meia dúzia de gatos pingados mirando-me por um bom tempo de maneira estranha e assutada, desliguei-me, eram indiferentes estes olhares para mim no momento. Chegamos a seu domicílio.
O pierrô parecia inquieto e nervoso, desconsiderei. Perguntou se eu beberia alguma coisa, um rum, gim, licor, vinhos antigos, boas safras... irresistivelmente não recusei o último e ficamos na sala, tímidos, saboreando o sangue de cristo.

Recordo-me ainda daquele diálogo que me esbranquiçou até o mais extremo apêndice do corpo e me roubou o corar da face, transformando-me numa gueixa de caracóis.
Suas confissões sigilosas que dizia guardar a sete chaves foram inicialmente desacreditadas por mim, porém, com o desenrolar da situação ví-me em meio à mais difícil noite de minha vida: a verdade!
O afastamento, o pranto, o coração descompassado, aquelas dezenas de minutos da revelação mórbida. Entre carícias por mim cedidas, o pierrô galanteador estancou nossos roçados e lacrimejando disse não poder mais, não ter mais forças. Seguido de tremidão, cortou-se das falas e ajoelhou-se ao chão pedindo desculpas, pedindo desculpas, pedindo desculpas....

Desconcertada fiquei ao ver seus cabelos e mãos cada vez mais translúcidos, a cada segundo que passava. Tentei em vão agarrar seu casaco, seus dedos, sua boca, sua alma, intangíveis às mãos carnais de uma mortal. Aos gritos choradamente mútuos o que parecia-me o grande arranjo e felicidade que eu jamais encontraria novamente desvaneceu-se por completo deixando apenas a dor e a saudade.
Não contive-me de trizteza aquela noite, e, fortemente desiludida e desnorteada, resolvi pernoitar o recinto, afim de um possível reencontro. O sono foi mais forte, dormi.
Acordei algumas horas depois com o barulho da fechadura apalpando o batente. Pulei no susto e arrombei com força os olhos vermelhos e doídos que permaneciam lacrados até então. Entrou pela porta um homem. Trepidei com seu físico, parecido com o do fantasma. Ele trepidou o dobro ao entrar em sua casa e ver uma desconhecida semi-nua em seu sofá. Por sorte, o homem pacífico e alegre havia acabado de chegar do carnaval e ouviu minha história oferecendo-me água e pão.
Seu sorriso branco ficou mais sério e encurtou-se da face: disse-me da descrição o seu falecido irmão encaixar. Sobre a morte, reti minhas dúvidas, mas não por muito tempo, afinal, como ele havia morrido e por que fizera-me vítima de um encontro?
O irmão, recordado agora de meus traços, respondeu-me apenas sobre o antigo amor do falecido por mim. Todavia, o motivo do óbito era uma dúvida minha emudecedora de sua boca. E é até hoje...

terça-feira, 29 de abril de 2008

A Valsa Triste (Sonho de Valsa) - Trabalho de Redação -.

Com os olhos arregalados e precisos, videei o pedaço de plástico rosa com seus pares de valsas e notas a esmo nos espaços das cinco linhas, seus dançarinos casais apaixonadamente trocavam pés numa valsa estática e sem sentido. Que linda essa valsa rosa e prateada, patrocinada pela Lacta., Não era apenas um sonho, era um delicioso sonho comestível, suas notas, seus vestidos, sapatos e até violinos. Ah, que delícia de valsa, insisto!

Assim, inerte sobre a mesa, nada soa, linda é a valsa triste, morta, com seus dançarinos trocando pés pela eternidade. Nada tocou, nenhuma nota sequer, enquanto triste a valsa era, porém, eu vi seus casais dançando, ouvi suas notas soando, senti o amor entre os dedos contagiados pelo plástico rosa rasgando o silêncio triste. Foi assim a abertura. Semi-nu estava agora uma esfera prateada, enrugada e obliquamente rotunda, meu reflexo - infelizmente - não era visível, porém, o odor que exalava essa ausência de valsa era inconfundível, um cheiro açucarado e amargo concomitantemente, um odor escuro, era chocolate!

Não contive minhas mãos e velozmente abri sua veste cromada, deixando a pobre esfera-quase-rotunda exibindo suas primorosas vergonhas, lambia com a pupila sua tez careca e morena, apreciei sua forma por alguns instantes não demorados, arrebatei aquele pecado e encravei-lhe os dentes como se nunca houvesse hora adiante.
Deusa da natureza, que perfeita és! Tu criaste a terra, árvores e frutos, enquanto o homem, homem sendo, colhe-os transformando em riquezas deliciosas. 'Inda me lembro daquele açúcar derretendo em minha língua e dentes, um sabor de valsa, uma valsa furta-cor em que eu era o dançarino apaixonado valsando eternas notas. Um sonho de Valsa

quinta-feira, 6 de março de 2008

A Mochila

Descrição da Mala

Aquele objeto sobre a mesa, mais conhecido como "Mala" ou "Mochila", está estático, inerte ao vento devido ao seu peso excessivo na base.
Empetecada com pequenos chaveiros cor-de-prata no formato de corações, a "Mochila" é toda rasgada por zíperes que atravessam-na abrindo em várias direções e sentido.
A "Mochila", objeto comumente escolar, acuda as necessidades do aluno em carregar objetos variados e de diferentes pesos.
Ela é toda revestida por uma coloração e retocada estilosamente com um tecido cinza atenuamente claro, quebrando, com leveza, o azul, isso resultou em uma mala com traços leves e delicados.
Um macaco roxo - de tamanho aproximado à palma da mão - está pendurado por um cordão de ferro, preso ao zíper. O macaco de pelúcia está de boca aberta fitando o alto, seu dedo da mão esquerda penetra com perfeição e suavidade na boca e se prende, como se estivesse chupando-o por insegurança.
Há, ao redor da "Mala", inúmeros bolsos e compartimentos de utilidades assaz.
Há também um cachorro - de pelúcia - rosado como chaveiro, possui olhos azuis - como na fronte do bolso exterior dianterio há um par de olhos representando a logomarca do produto - e feminilidade.
A "Mala" mede o tamanho necessário para se encaixar ergonomicamente nas costas.
Uma "Mochila" feminina.

P.S: PUTA MERDA, Q POSTAGEM INÚTIL!!!

Mais inútil ainda foi essa aula de redação!

@___@

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Histórinha

Sete anos, 4 meses e 11 dias após a virada.

Acordou cedo o menino de olhos cansados e redondos, aprontou-se para o dia, vestiu sua melhor camiseta e bermuda com a incerteza de uma nova trilha para o cotidiano. Arrumava-se, penteava-se, perfumava-se não sabia por que, nem ao certo por quem. Duvidava de si mesmo e dos fatos.
Não se achava só um menino, postava-se como “aborrecente” à época, mas vivia desencontrado, sem guia ou rumo certo, encostado em um muro de ilusões pichado e urinado. Suas veias destinatárias bifrucavam-se por sete, oito, nove, 20 vezes com a mesma pressa da incerteza de encontro ao vazio.

Ir à escola em situações semelhantes, lhe era conveniente, entretanto, pelo fato de ter por marcado um compromisso à tarde com aquela que lhe prendia de maneira peculiar os pensamentos há tão pouco tempo, não prestou atenção na aula (como não o fazia há tempos). Desconcentrava-se e planava em sua fértil imaginação de moleque no mais eloqüente dos sonhos que jamais ousara ter, um cheiro novo no ar o remetia a antigos momentos da alma, não possuía mais aquele fardo carrancudo e frio de ambicioso estudante solitário, pois sabia que havia coisas mais importantes que boa qualificação no mercado, só não recordava o que, nem como sentir, mas via passar em seus olhos o transtorno e a angústia aliados à felicidade com anseio.

Rodava sentado naquela aula infausta, tributava em seu fichário desenhos, versos e melancolias ao ócio, na escola (aquele grande centro de sabedoria e memorização) já era comum aquela subversividade tachada e pré-programada, pois, poucos sabem sua real intenção. Ele não admitia essa repressão impressa no quadro negro, muito menos a pressão imposta no quadro letivo, alguma coisa o desconcertava daquela linha de pensamentos tênue da obediência e submissão.

Soou o alarme ruidoso e indelicado, expulsando suas máquinas de dinheiro das salas de aula. Era a hora, fez mais algumas coisas, conversou com mais algumas pessoas de livros abraçados ao corpo, perguntou por sua amiga, que o encaminharia até o encontro, e após despedidas e risadas, partiu.

Aqueles momentos no metrô angustiavam cada vez mais o menino, que ansioso e estranhamente tenso olhava para a cara daquelas todas pessoas sentadas nas cadeiras cansadamente públicas, olhavam todas para o além... Um olhar frio e banhado de fossa, impetuoso e contraditório. Um homem careca de cabeça lustrada chamou-lhe a atenção, fitou sua face e seus movimentos, reparou em como estava vestido, eram trapos velhos, uma camiseta de eleição antiga, suas mangas estavam esgarçadas e com alguns fios pingentes, de cor branca e amassada, nela tinha uma estampa escrita “PT” ou algo do tipo, são tantos partidos... Sua calça era uma calça de guerra, aquelas de exército que nota-se à distância, caracterizada pela cor verde-musgo sobrepujada pelas cores verde claro e a ausência de cor em formatos de células. Percebia-se o estado paupérrimo do homem de meia idade, ele conversava com mais duas senhoras que vestiam grandes saias (atingindo a canela), estas duas velhinhas de óculos de grau, enquanto conversavam com ele, fazia movimentos apontando e massageando a coluna, como quem reclama, massagearam os pés, as pernas, a nuca e o joelho fazendo cara de dor, mas não perceberam-se levantando da cadeira de plástico e saindo normalmente porta afora do vagão.
O menino cansa e vê o público em geral, donos de sua atenção e espaço, aflito, aquele garoto sente seu ar ser esgotado por cada segundo do trilho, a estação não chegava nunca e parecia que quanto mais andava, mais se distanciava, era o verdadeiro caminho para a distância. O ruído das portas fechando o incomodava bastante, assim como os transeuntes que adentravam o vagão, as mesmas vidas e caras vazias sugando cada vez mais seu precioso ar de respiro, não sabia se agüentaria por muito mais tempo, via o vagão acendendo e apagando, ficando tudo escuro e tornado a enxergar limpidamente o que não aceitava ver. Tornou a apagar, e dessa vez foi súbito. Lembra-se da campainha na porta, por sorte nada acontecera, o moleque estava bem, e são, saiu pela porta do vagão pisando novamente no chão firme e respirou profundamente um suspiro aliviado.

O menino aguardava na catraca, no ponto marcado, não sabia se era a toa, não sabia nada, se ela vinha ou não, se preferia os seus outros compromissos do cotidiano, se desmarcara de última hora e não pôde avisá-lo, se vinha sozinha. Sabia apenas que estava lá e esperava. Ela veio e após um beijo de bochechas, partiram e foram deambular por aí.

Aquela menina tinha algo de especial, ele sentira isso no seu primeiro olhar do dia, era um olhar que difere das outras, não tinha motivo, apenas o espantava de admiração, cruzaram caminhos na vida e não sabiam. Conversavam e conversavam, coravam em rubras expressões faciais, felizes e incompletos, apenas aguardando a hora incerta.

Deram as mãos inexperientes naquele tato, era gostoso ter as mãos cruzadas, ambos sentiam aquela roçada e admiravam senti-la.

Rumaram ao metrô, estranhamente pararam de conversar oralmente e o fizeram com os olhos, fitando e lambendo os cílios, a íris, as cores brancas e serenas que só um olho sabe nos trazer.

O garoto nervoso e ansioso, pressionou a mão da menina com força, encontrando-a bem de perto com os olhos e os abraços, arrebatou sua cintura e sentiu o calor da respiração feminina cruzando sua boca, seu queixo, sua nuca, não sentia mais nada, não pensava mais em nada, apenas a sensibilidade da pele em sua face, lamberam seus olhares novamente e apertaram-se, mais ansioso e sereno o garoto se sentia, não havia coisa mais certo, fecharam os olhos e se tocaram levemente com os lábios. Não se cessariam por um longo tempo, pois não beijara apenas sua boca, beijara sua alma, eternamente.

sábado, 15 de dezembro de 2007

Reação!

É a hora do ócio! O momento mais improdutivo do dia. É aquele cansado momento em que sentamos na cadeira a frente do pc e ficamos tortos e indiferentes, olhando para o além. Aquele instante de horas em que à humanidade em nada contribuiu, um momento triste e inquieto mentalmente, não há o que agir, só o que pensar, sem escapatória.

O ócio é preguiçoso, valente e espalhafatoso, não vê a hora de chegar, e quando chega, fica e mostra. Não sai nem que rogue, cante, fuja, não importa, ele vem, e quando vem, todos percebemos. Diferentemente da vadia (ler postagem 1) ele aparece o tempo todo, na forma mais horrível que se possa imaginar, atraindo-te às mais diversas variações de ociosidade possível. A mais comum é conhecida como "Orkut", e já virou mania, é a preferida do ócio. Temos também os joguinhos dial-up (como poderia deixar de citá-los) estes ocupam um bom tempo em nossas medíocres vidinhas improdutivas durante o ócio.

O problema, o grande problema, é que o ócio se informatizou por inteiro, a tal da inclusão digital chegou até ele com um modem e disse: Toma, USE-O EM DEMASIA.
À partir de então, nossas vidas passaram de pacatas aventuras rotineiras (como ler um bom livro, estudar, ir até a mercearia, brincar na rua, escrever, PENSAR) para extraordinárias balbúrdias on-line em que olhamos centenas de fotos e assuntos relacionados a vida dos outros.

Assim não dá, pois o que não percebemos, é que estamos no transformando em zumbis-vivos, a nossa vitalidade é extraída do pescoço dessa enorme rede de conhecimento chamada internet. Que conhecimento é esse? Aquele que nos deixa corcundas? Aquele que nos atrai o ócio como um bom imã de improdutividade? Aquele que nos repulsa de um bom livro?

Chega! Cansei de ti, ócio! Serve-me para escrever, apenas, mas se a vadia não vem, torna-te a coisa mais repugnante, deprezivel e incapacitada que eu infelizmente... Amo.

De: Maria-do-Carmo.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Namorados Públicos (Vinicius de Moraes)

Da mesma forma que os monumentos históricos ou artísticos, as belezas naturais, os bailes e cafés, os parques e jardins - os casais de namorados são coisa que pertencem ao patrimônio de uma cidade. Uma cidade sem namorados públicos não é uma verdadeira cidade. Os cicerones de Paris costumam mostrá-los aos turistas, inteiramente despreocupados em suas ternuras, como típicas curiosidades locais. No Hyde Park, em Londres, é possível vê-los às centenas, sobre o gramado esmeralda desse parque inexcedível como se estivessem em casa. O transeunte margeia beijos intermináveis, abraços infinitos, olhares abissais, namorados que lêem romances, namorados que dormem, namorados que brigam, a um passo uns dos outros, perfeitamente indiferentes ao que lhes vai em torno, - e o que é formidável - guardados da curiosidade, ou malícia alheias, por um passante constable, cuja função é zelar pela perfeita consecução de seus carinhos, com uma imparticipação e fidelidade dignas de todos os aplausos. É claro que os namorados não abusam. Mas nessa questão de carinhos de superfície eles se permitem um uso inumerável. Estrafegam-se em beijos que fariam a inveja de John Gilbert ao tempo da sua paixão por Greta Garbo. Dão-se abraços de não se saber mais quem é o outro. Fazem-se cafunés maravilhosos, esfregam-se os narizes, acarinham-se os rostos, enfim: tudo isso que faz a deliciosa cozinha dos que se amam e que vem sendo a mesma desde os tempos mais recuados no tempo. Ninguém pode dizer que o Rio não seja uma cidade de namorados: ela o é. Seria difícil, aliás, compreender-se uma cidade tão pródiga em beleza, sem namorados. Mas são namorados, meu Deus, ou tão ousados ou tão tímidos que parecem uma contrafação da natureza humana diante da Natureza. Grande culpada disso foi, até certo tempo, a nossa polícia de costumes, que arrolava todas as carícias de namorados dentro de um mesmo código moral, chegando até ao abuso de prender gente casada que saía para namorar fora de casa. Não. Há carícias e carícias. Que mal existe em se beijarem os namorados em praça pública ou nos cantos de rua? Em que uma coisa dessas ofende a moral? Por que não se poderão eles abraçar ternamente, quando tiverem vontade? Pois parece incrível: outro dia um amigo meu contou que foi "apitado" várias vezes por um guarda do Jardim Botânico, por estar dando um "peguinha" na namorada. De fato: é justo, mais do que justo, que se moralizem os costumes. Nada mais certo. Mas perseguir os namorados, da mesma forma que arrancar as plantas dos parques, ou maltratar os animais, é indício de mau caráter. Que os namorados se beijem à vontade nesta linda Rio de Janeiro. Nada há de mal no beijo dos namorados, como no amor dos pássaros. Deixai-os nos seus parques, nas suas ruas escuras, nos seus portões de casa. Deixai-os namorar, Senhor Prefeito, Senhor Diretor do Jardim Botânico, deixai-os namorar, porque eles têm cada dia menos lugares onde ir esconder seus anseios. Deixai-os se beijarem à vontade, porque o que em seus beijos irrita os burgueses moralizantes é justamente essa liberdade, essa beleza, essa poesia, esse vôo que há num beijo de amor. Tréguas aos namorados!

°...° Ócio Oblíquo °...°


"De manhã escureço

De dia tardo

De tarde anoiteço

De noite ardo."



(Vinícius de Moraes - Poética)





Faça-me o ócio e te porei palavras... Não fê-lo pois não quis, ou fê-lo sem eu saber. De qualquer forma, posto é posto.

Ócio é repouso, vagar, preguiça ou descanso (em seu sentido literário), é este que se aplica aqui, não o sentido negligenciado, sim, o de vadiagem. Oblíquo aqui remete ao torto, reverso, incorreto, o que mais cabe neste blog.

Chame-me como queira ou queira me chamar como deve, de qualquer forma, não me chame pois não atenderei, possuo vários nomes irreais, pseudônimos controversos em pessoas normalmente entrevadas. A Maria (que é o João) comumente escreve como Zé, ambos inertes.

Acostuma-te.



Aqui se verá textos de autores famosos, textos de autoria minha (ou nossa, como preferir), descrições, poesias, críticas e tudo mais que se põe em um blog. Esperamos ter tempo o bastante para isto, além de inspiração (chamo-a de vadia), a vadia não vem sempre, portanto, postaremos assim que der e vier.

Sê paciente, sê complacente.



P.s: Imagem clichê. Desgoste.